Binance: o hack começou com uma entrevista de emprego falsa

Capa: o hack da Binance por dentro do relatório

A Binance divulgou nesta terça-feira (3) o relatório preliminar do roubo de US$ 6,34 bilhões. O caminho dos invasores começou com uma vaga de emprego que não existia.

Há um detalhe desconfortável na história: a empresa foi atacada usando a própria ferramenta de inteligência artificial dela.

Setembro: a entrevista

Um engenheiro foi abordado numa plataforma de recrutamento legítima por alguém que se apresentou como diretor de projeto. O processo correu normal, com entrevista e teste técnico.

O teste veio com um instalador de ferramenta de desenvolvimento adulterado. Ao rodar o arquivo, o engenheiro abriu a porta: o programa trocava a biblioteca original por uma versão modificada e entregava acesso à máquina.

A proteção de endpoint da empresa não identificou nada.

Outubro: a IA interna como atalho

Em 20 de outubro, já com o computador comprometido, os invasores usaram a ferramenta interna de IA da Binance para alcançar mais dois engenheiros. A ferramenta tinha acesso a máquinas e a informações internas, e virou ponte.

Dessa ponte saiu um token de permissão de implantação, uma credencial que autoriza publicar código em produção. Com ela, o grupo não precisava mais de senha nem de aprovação humana.

Quem protege a entrada esqueceu de proteger a ferramenta que fica do lado de dentro.

Infográfico do relatório
Números do caso. (Imagem: Crypto Briefing, arte: CGBR.NET)

29 de outubro: a execução

Com as credenciais, os invasores publicaram um contêiner e rodaram um script que alcançou o serviço de assinatura das carteiras. A partir dali, assinaram transações que pareciam legítimas.

O mecanismo usado foi o EIP-7702, que permite a uma carteira delegar poderes a um contrato. Foram 50 transações de assinatura para montar as autorizações maliciosas.

  • 18.270 BTC
  • 970,5 mil SOL
  • 233,46 milhões de XRP
  • 44,2 milhões de OP

A última transferência não autorizada foi de 2.961,9 ETH, às 23h56 UTC do dia 29. A delegação foi revogada pouco depois da meia-noite do dia 30.

O que já foi recuperado

Cerca de US$ 2,85 bilhões foram congelados ou interceptados. Até 31 de outubro, a exchange diz ter reposto 98% dos tokens afetados nas carteiras dos clientes.

A empresa também afirma ter reconstruído a infraestrutura de carteiras e a ferramenta de IA interna, trocado os dispositivos e revogado credenciais. Contratou empresas externas para revisar sistema e código.

Quem foi

O FBI atribui o roubo ao grupo TraderTraitor, ligado à Coreia do Norte. O país nega.

Vale lembrar que a Coreia do Norte já tinha sido apontada antes, no caso da Bybit. O roteiro se repete: engenheiro como alvo, confiança como arma, prazo longo de preparação.

O que isso ensina para quem não é Binance

  • Vaga de emprego é vetor. Teste técnico pedindo para instalar pacote é rota conhecida de ataque;
  • Ferramenta interna é superfície de ataque. IA com acesso a máquina e a documento precisa da mesma proteção de um servidor exposto;
  • Token de deploy é a chave-mestra. Quem tem esse token não precisa quebrar carteira, só pedir para o sistema assinar.

Conclusão

O relatório é bom trabalho técnico e péssima notícia para a tese de que exchange grande é seguro por tamanho. O ataque não quebrou criptografia: passou por uma pessoa, um instalador e uma permissão.

Para quem usa corretora, a pergunta que sobra é simples e incômoda: se o invasor precisa de uma pessoa para entrar, quantas pessoas naquela empresa clicariam no arquivo errado?

Leia também: Binance reabre saques e US$ 3,64 bilhões saem da exchange; FBI confirma que a Coreia do Norte roubou da Binance; Mercado Bitcoin sofre ataque e suspende saques.

Este conteúdo é informativo e não constitui recomendação de investimento. Criptoativos envolvem alto risco.

Fonte: Crypto Briefing (com base no relatório preliminar da Binance)

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